Uma linguista de um milhão de dólares

Asset Management & Advanced Analytics – a startup: DefinedCrowd

Há sabedoria na multidão. E quanto maior esta for mais informação dela é possível retirar. Este é o princípio por trás das tecnologias de big data e crowdsourcing: capturar os dados em bruto gerados pelas ações e comportamentos de grandes grupos, modelá-los, interpretá-los e dar-lhes utilidade. E, no fim da linha, utilizá-los para criar inteligência.

Na vanguarda deste tipo de tecnologia está uma portuguesa: Daniela Braga, 38 anos, que se formou em Linguística e Tecnologias de Voz na Universidade do Porto e hoje está entre os mais avançados especialistas mundiais na ciência que põe os sistemas de inteligência artificial a falar e compreender a linguagem natural, como se fosse uma pessoa real.

Daniela Braga está a pôr a falar as máquinas das gigantes da tecnologia

Daniela Braga está a pôr a falar as máquinas das gigantes da tecnologia

Com uma carreira iniciada na Microsoft, Daniela enveredou pela área da análise de big data em 2010 e logo compreendeu as dificuldades de aplicação prática dos modelos teóricos. “Os dados eram insuficientes e era tudo muito lento”, conta ao DN. Havia “espaço para desenvolvimento”.

Já a viver em Seattle, onde continua a estar sediada, Daniela decidiu criar a sua própria empresa (na altura com uma sócia) para fazer o que os outros não pareciam ser capazes. O financiamento resolveram-no “num almoço”, conta. “Angariámos 200 mil dólares” de capital-semente de “investidores-anjo” daquela cidade. E no verão de 2015 surgiu a DefinedCrowd, empresa totalmente dedicada a criar plataformas tecnológicas de crowdsourcing, capazes de ler, interpretar e interligar fluxos de dados complexos para serem usados em aprendizagem de máquinas (machine learning) e inteligência artificial. Em novembro, abriu uma extensão do projeto em Portugal, onde, como diz, existe “muita criatividade e pensamento out of the box”.

Em menos de um ano, a DefinedCrowd tornou-se líder na sua área, com clientes em mais de 36 países e a trabalhar em mais de 30 línguas e uma centena de dialetos. No início do mês, assegurou um investimento de 1,1 milhões de dólares do Sony Innovation Fund, do Amazon Alexa Fund e da Portugal Ventures. Ou seja, vai fornecer a tecnologia que literalmente põe a falar a Alexa, a nova assistente digital da Amazon, e os sistemas de inteligência artificial da Sony. E com isto vai crescer em Portugal: os seus sete colaboradores passarão a ser 18, logo que possível. Só uma coisa está a dificultar o projeto: encontrar especialistas que não estejam já empregados. “É quase impossível contratar data scientists”, admite a presidente executiva de uma das startups tecnológicas de maior sucesso do momento.

Ricardo Simões Ferreira

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